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Um novo papel para os impressos

Por Wedencley Alves

(Publicado originalmente no Observatório da Imprensa.)

  As discussões acadêmicas em torno de questões de gênero estão em voga. Não tratamos aqui do binômio gênero e sexualidade, mas de gêneros de comunicação e gêneros de discurso. As abordagens quase sempre tomam como ponto de partida o filósofo da linguagem russo Mikhail Bakhtin, que utilizou o conceito pela primeira vez para estudar os gêneros literários, ancorando as definições tradicionais do materialismo histórico.Assim, gênero é uma regularidade enunciativa que se estabelece em meio à heterogeneidade da prática lingüística. Trata-se de uma estabilidade de modos de falar – e de escrever – que se constitui historicamente. Para efeito de análise rápida, mesmo que atentos ao atual uso excessivo e nem sempre criterioso do conceito, vamos admitir a existência de três gêneros no jornalismo: informativo, analítico e opinativo. Desta forma, discordamos dos autores que classificam a reportagem ou a notícia como gêneros em si mesmos, ao mesmo tempo em que divergimos quando outros tentam reunir todos os produtos jornalísticos em apenas dois gêneros: informativo e opinativo.

Um terceiro ponto crítico é o fato de que, se três são os gêneros jornalísticos, não se deve denominar o segundo como interpretativo, visto que as ciências da linguagem, e especialmente a Análise de Discurso, já deram provas suficientes de que toda a atividade lingüística é interpretativa – ou seja, não haveria um gênero especialmente interpretativo.

Mais cautelosamente podemos denominar o gênero intermediário como “analítico”, visto que a resenha, a (análise) crítica e as colunas de política, economia, internacional, esportes, quando sustentadas por experts, não são meras opiniões.

Partindo de uma armadura conceitual simples como essa, podemos compreender alguns fenômenos atuais como o hibridismo da revista Veja, a legitimação das revistas opinativas, a volta de um vespertino ao mercado carioca e a possibilidade de um novo papel para os grandes jornais. Todos esses acontecimentos editoriais, a nosso ver, podem ser considerados dentro da percepção de que há no momento importantes transformações no que diz respeito aos gêneros jornalísticos.

O caso crítico da Veja

O primeiro fato a ser considerado é o hibridismo da revista Veja. Cada vez mais parecida ideológica e editorialmente com a revista de análise e opinião Primeira Leitura, a magazine do Grupo Abril seria até melhor se não fosse por um detalhe: ela é vendida como revista semanal de informação.

Antes de tudo, não é um problema ético o fato de que a Veja não dê muita bola para qualquer ideal de imparcialidade, até porque reportagens costumam ser menos imparciais do que as notícias. Isto não é um “problema ético” também porque a associação entre informação e imparcialidade é fruto de uma construção histórica tardia. Na segunda década do século 20, Julio de Mesquita, por exemplo, prometia fazer do Estado de S. Paulo um jornal opinativo e imparcial, e por isso independente.

Pode-se acusar a Veja, ou qualquer outro veículo, de impropriedade ética, se vierem a ser provadas práticas jornalísticas escusas. Mas não é disso que tratamos aqui. A Veja é um caso crítico, do ponto de vista discursivo, porque se coloca como produto híbrido do ponto de vista do gênero jornalístico. E isso ocorre quando ela manda às favas – e parece ser uma decisão editorial bastante consciente – os três fatores de legitimação do gênero jornalístico informativo: a presença de dados devidamente atribuídos a instituições ou pessoas autorizadas, de documentos e de depoimentos confrontados e contextualizados.

Dados, documentos e depoimentos geralmente não deveriam ser manejados com o único interesse de confirmar as hipóteses aventadas em reportagens dissertativas. Em respeito a uma imparcialidade jurídica – sem envolvimento com as partes, mas voltada para o interesse público, o que é diferente da impossível imparcialidade lógica, ou neutralidade – não se pode deixar de lado dados ou documentos que não confirmem o que se pretende confirmar – e muito menos forjar dados e documentos, que, aí sim, seria uma questão ética.

Contrariando tradições

Também não se deveria, dentro da proposta de um jornalismo informativo, ignorar depoimentos que tragam o contraditório e que coloquem a hipótese à prova. Até porque, uma hipótese condenada a ser confirmada deixa de ser hipótese para ser pressuposto.

Não se pode pedir nada disso a uma revista como a Primeira Leitura ou a Caros Amigos. Estas cumprem com afinco o seu papel de veículo analítico e opinativo. No gênero analítico, o que mais conta é a “expertise”, a palavra do especialista, e é isso que o legitima. No gênero opinativo, é o cabedal argumentativo que sustenta o seu objetivo de convencimento e persuasão. No último caso, dados, documentos e depoimentos, quando utilizados, estão a serviço da força retórica que o autor quer imprimir ao texto.

É por isso que é cada vez mais difícil distinguir, na Veja, o material publicado pelos articulistas daquele escrito pelos jornalistas.

Um outro acontecimento editorial bastante interessante se deu na semana passada (7/11) nas ruas do Rio de Janeiro: o surgimento do jornal Q!, que contraria uma tradição de leitores não-acostumados a tablóides; contraria também a convicção de que a era dos vespertinos havia passado definitivamente. Mas se os vespertinos foram embora por obra e graça de um telejornalismo noturno que roubava deles a segunda fase de leitura do dia, o empreendimento da família Carvalho – O Dia – está em sintonia com os desafios impostos por sites, blogs e all news.

Produtos do futuro

Parece que os jornalões vão ter que se abrigar em outros gêneros, visto que já fica difícil acreditar que apresentem algo novo no dia seguinte. Acreditamos que o Q! é o início da separação entre vespertinos informativos e matutinos analíticos.

Outros sintomas dessa transformação são as aberturas do noticiário político de O Globo, já distante do bom e velho lead, que parece se entrincheirar nos três títulos das matérias principais; e o tom pesadamente opinativo das capas do JB durante a crise política.

Mas a grande ameaça ao “jornalismo informativo de dia seguinte” parece ter sido a força que os blogs ganharam durante a crise política que vai se arrastando. Lembre-se do exemplo dos “jornalistas de laptop” Ricardo Noblat e Jorge Bastos Moreno, que deixaram de ser uma atração dentro de seus portais para, em diversos momentos, serem a principal chamada no iG e no Globo Online, respectivamente, e mesmo a referência noticiosa do dia.

E talvez um dia tenhamos os seguintes produtos à venda: a revista semanal de opinião Veja, os jornais de análise O Globo, O Dia e Jornal do Brasil e os três blog-jornais vespertinos Q!, Y! e Z!.

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